ETERNAS ONDAS – FAGNER OU ZÉ RAMALHO
- Carlos Henrique
- 8 de jun.
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de jun.
Qual a reflexão sobre o contraste entre a força da natureza e a fragilidade humana que resultou em um grande clássico da música brasileira?
A música “Eternas Ondas” foi composta pelo cantor, compositor e músico paraibano Zé Ramalho. A composição, que possui uma forte veia mística e quase soa como uma oração, acabou casando perfeitamente com o estilo nordestino de cordel. Estruturada por estrofes sem refrão fixo, evidencia um percurso poético que rompe com o formato da canção comercial, adotando linguagem profética, oral e simbólica. Permanece atual diante dos impasses ambientais, culturais e políticos que marcam o século XXI.
A letra utiliza elementos da natureza, como as ondas e o vento, como metáforas, e acentua aspectos como a força incontrolável do tempo, a fragilidade humana e os ciclos inevitáveis de transformação, destruição e renovação. A metáfora das “ondas” foi concebida sob a forte influência do tema bíblico do dilúvio, representando o julgamento coletivo diante da transgressão humana, ambiental ou moral.
Utiliza elementos da natureza como símbolos de forças históricas que moldam a vida humana. As "ondas", o "vento" e as "árvores" não aparecem apenas como paisagens, mas afetam tanto pessoas quanto o ambiente. O verso “Derrubando homens entre outros animais / Devastando a sede desses matagais”, por exemplo, destaca a vulnerabilidade humana diante dessas forças, mostrando que todos, sem distinção, estão sujeitos a eventos inexoráveis, que fogem ao controle individual.
A música foi primeiramente lançada por Fagner em 1980, como a faixa 1 do álbum do mesmo nome (“Eternas Ondas”). Ele também incluiu essa canção em álbuns de coletâneas e ao vivo.
O próprio Zé Ramalho igualmente decidiu gravar essa música e incluí-la em sua discografia como a faixa 2 do álbum “Força Verde”, lançado em 1982. Posteriormente, colocou uma versão dessa canção no seu álbum “20 Anos: Antologia Acústica” (faixa 7 do Disco 1), lançado em 1997, que é a opção que é mostrada aqui neste post no Blog.
Temos, aqui, estilos e formas de cantar bem distintos. Uma versão mais épica e dramática (Fagner) e outra mais contemplativa e autoral (Zé Ramalho).
Na versão interpretada por Fagner, ele, com sua voz marcante e o estilo de cantar único, transmite a urgência e a dramaticidade da canção, com uma interpretação melodiosa, reflexiva e intensa.
Interpretação, arranjo e harmonia poderosos, que “empurram” a música para frente. O instrumental se destaca, com cordas e teclados com sons contínuos e envolventes, além de bateria e baixo muito presentes. Destaque especialíssimo para os solos de guitarra extraordinários de Robertinho do Recife.
A música parece reforçar o sentimento de forças históricas e naturais incontroláveis, como se o ouvinte “sentisse” o impacto das ondas.
Já na versão de Zé Ramalho aqui mostrada, temos uma pegada realmente mais acústica. É como um pronunciamento, em tom de recital, no seu habitual estilo enigmático, esotérico, até certo ponto solene, visionário, imponente, em sua voz apocalíptica. Seu timbre grave e rouco valoriza a oralidade e a narrativa.
O arranjo é muito bem amarrado, primoroso. A harmonia sustenta a reflexão. No instrumental, predominam violões e guitarra acústicos, percussão discreta e poucos outros elementos de apoio. O ouvinte “contempla” as ondas. Robertinho do Recife também participa nessa versão, no arranjo.
E, para quem se interessar, na internet e nas plataformas musicais está disponível, também, uma bela interpretação dessa música com os dois juntos (Fagner e Zé Ramalho), no álbum “Fagner & Zé Ramalho Ao Vivo” (faixa 13), lançado em 2014.
Sobe o som e vamos curtir juntos esse clássico da nossa MPB!
E lembre-se: o objetivo, aqui no Blog, não é indicar qual é a maior ou a melhor, e sim a versão que mais lhe agrada ou com a qual você mais se identifica. Escolha a que você mais gosta e sinalize sua escolha nos comentários!
Spotify - Original - Fagner: https://open.spotify.com/intl-pt/track/5VERvnypHHmAL4vO9qzw79?si=ee4b72d94fb14bc2
Spotify - Versão - Zé Ramalho: https://open.spotify.com/intl-pt/track/0Z5w3JJXG9FIJcDCbFcN52?si=428dee8d66d74a23

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